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sábado, 13 de outubro de 2018

Filho de Eduardo Campos perpetua o poder da família em Pernambuco


No balcão de uma farmácia na periferia de Olinda (PE), João Campos (PSB) pede um sal de fruta e um copo d’água. “Estou com uma dor de estômago”, diz a um assessor, enquanto passa a mão com movimentos circulares pela barriga. Na última semana de campanha eleitoral, o engenheiro civil, vestindo camisa branca e tênis esportivo, seguia com a estratégia estafante de fazer o corpo a corpo nas ruas. “Já visitei mais de 55 cidades nos últimos 40 dias. Algumas, mais de uma vez”, afirmou. Apesar disso, ele não se dizia cansado. “Às vezes trabalho até 20 horas por dia”, garante. No último domingo, a tática “incansável” parece ter funcionado: em sua primeira eleição, o neófito amealhou mais de 400.000 votos, tornando-se o deputado federal mais votado da história de Pernambuco.

Apesar do sucesso nas ruas, a campanha do jovem deputado, de 24 anos, não contou somente com o corpo a corpo. Ou com os mais de 30 cabos eleitorais contratados para sacudir bandeiras e distribuir santinhos por onde ele passava. Não fosse por um fator específico, seria difícil saber se até mesmo os mais de 1 milhão de reais investidos pelo PSB em sua campanha, por meio do fundo partidário, seriam suficientes. Para ganhar essa eleição, João Campos contou com a imagem e associação direta do pai, Eduardo Campos, morto em 2014 em um acidente aéreo enquanto fazia campanha para presidente. “É muito forte o nome dele, você percebeu?” perguntou à reportagem, enquanto cumprimentava eleitores na rua. “As pessoas falam mesmo ‘eu só voto porque é filho de Eduardo’. É impressionante”.

O herdeiro político, título inevitável que o deputado recém-eleito rejeita, contou diretamente com a família para se alavancar na vida pública. Bisneto de Miguel Arraes, a quem ele se refere como “doutor Arraes”, João Campos já era um nome ventilado por seu partido para disputar as eleições em 2014. Naquela época, não aceitou. Mas, dois anos depois, entrou de vez na política, pela porta da frente do Palácio do Campo das Princesas, sede do governo de Pernambuco. Como chefe de gabinete, passou a integrar o alto escalão da equipe do governador Paulo Câmara (PSB), cujo nome foi escolhido a dedo por Eduardo Campos para disputar o Governo em 2014, e acaba de ser reeleito por uma margem estreita de votos.

Agora, com o slogan “filho da esperança”, João Campos levou a imagem do pai e do bisavô em seu material de campanha. Nas ruas, entrava em farmácia, perfumaria, supermercado e açougue, cumprimentando um a um seus potenciais eleitores. Foi abraçado e beijado principalmente pelo eleitorado mais velho e feminino, que dizia a ele coisas como “meu menino” e “tão lindo, parece meu filho”, além de pedidos para que ele seja o próximo governador. Sobre ser o sucessor de Paulo Câmara, ou mesmo de disputar a Prefeitura do Recife, outra possibilidade analisada por seu partido, João desconversa. “A marca que meu pai e doutor Arraes deixaram no Estado é muito forte. Acho natural as pessoas quando me veem, imaginarem isso [sobre ser governador]”, diz. “O futuro a gente vai construindo. Não é tarefa de agora pensar lá na frente”.

Os degraus subidos por João Campos na escalada política fazem parte de um caminho que vem sendo construído há anos. Filiado ao PSB desde 2013, diz fazer política “desde criança”. Sua estreia com votação recorde, superou uma marca que já era dominada pela família. Até então, sua avó, Ana Arraes (PSB), havia sido a deputada mais votada do Estado, quando chegou em 387.000 votos em 2010. Antes dela, a marca era de posse de Miguel Arraes (PSB), que em 1990 conquistara 340.000 votos. Ser o deputado mais votado, portanto, era o caminho natural a seguir, embora ele negasse essa expectativa durante a campanha. “Não tenho nenhuma pretensão de ser o mais votado”, afirmou, a menos de uma semana do pleito. “Nem eu, e nem o meu partido”.

Apesar da votação recorde de João Campos, o PSB perdeu três cadeiras desde a eleição de 2010, e ocupará cinco, das 25 vagas de Pernambuco na Câmara dos Deputados. Partidos nanicos ou com pouca representatividade, como o Patriota, e o PSL, de Jair Bolsonaro, ganharam projeção maior, na esteira do que ocorreu em todo o país.

Em família

Após a morte de Eduardo Campos, a viúva Renata Campos tomou as rédeas da família sozinha. Filiada ao PSB desde o início dos anos 90, Renata sempre atuou nos bastidores do partido. Quando o marido morreu, a dinastia Arraes perdia ali seu nome mais forte, algo que João tenta agora resgatar com sua eleição. Naquele momento, levantou-se a possibilidade de Renata assumir o posto de vice-presidenta na chapa assumida por Marina Silva, hoje na Rede. Ela recusou, mas seguiu desempenhando seu papel por trás das coxias. Figura importante dentro do partido, é consultada constantemente sobre decisões importantes. No caso do filho João, Renata opinou sobre material de campanha, vídeos e esteve por perto sempre que pôde. “Nem sempre ela consegue, porque ela tem que cuidar de Miguel”, diz João.

Miguel é o caçula dos cinco filhos do casal Campos. Quando Eduardo morreu, ele era um bebê. A primogênita, Maria Eduarda, também está na política: assumiu em 2016, aos 23 anos, a gerência de Zoneamento Especial do Instituto Pelópidas Silveira, órgão ligado à secretaria de Planejamento da Prefeitura do Recife, comandada pelo PSB. Os outros três irmãos ainda são estudantes.

A hereditariedade do poder é um traço comum na história da política brasileira. No caso da dinastia Campos, o “doutor Arraes” alavancou também a candidatura da neta, Marília Arraes (PT), a segunda deputada mais votada do Estado e a única mulher eleita no Estado. Assim como João, a prima de Eduardo Campos também usou a imagem do avô em seu material. Só não contou com a imagem de Eduardo porque eles brigaram em 2014, o que levou que a atual vereadora e futura deputada deixasse o PSB.

Embora João Campos tenha usado a imagem do pai e do bisavô na campanha, ele afirma que a linhagem não necessariamente faz dele um bom político. “Ser filho de alguém não significa que você é bom ou ruim”, diz. “Para estar na política tem que ter vocação”. Em entrevista ao EL PAÍS no mês passado, Marília Arraes disse algo parecido. “Sou a neta mais velha de Arraes e convivi muito com ele. Faz parte da minha formação a convivência, mas não significa que para mim política seja um assunto de família”, afirmou.

Enquanto João Campos foi o mais votado em Pernambuco, em São Paulo quem ficou na liderança foi Eduardo Bolsonaro (PSL), filho de Jair Bolsonaro. Outros herdeiros também se elegeram em outros Estados, como no Mato Grosso, em que Emanuel Pinheiro Filho (PTB), filho do prefeito de Cuiabá Manuel Pinheiro, levou uma das cadeiras de deputado federal. Em Pernambuco, João Paulo Costa (Avante), filho do senador Silvio Costa, Antônio Coelho (DEM), filho do senador Fernando Bezerra Coelho, e Romero Sales Filho (PTB), filho do ex-prefeito de Ipojuca, Romero Sales, e da atual prefeita Célia Sales, engrossam o caldo do poder hereditário.

A marca de família, porém, não colou em todos candidatos. Marcelo Crivella Filho (PRB-RJ), filho do prefeito do Rio de Janeiro Marcelo Crivella (PRB), Danielle Dytz Cunha (MDB-RJ), filha do ex-deputado Eduardo Cunha (MDB), preso por corrupção, Fernando James (PTC-AL), filho do senador e ex-presidente Fernando Collor de Mello (PTC) e Marcello Richa (PSDB-PR), filho do ex-governador do Paraná Beto Richa (PSDB), compõem a lista dos herdeiros não eleitos neste ano.

Em Brasília, João Campos, que deve seguir a trajetória do pai e do bisavô, terá que contar com mais artifícios que seu sobrenome. Com a possibilidade de um governo liderado por Jair Bolsonaro, o jovem deputado afirma que fará oposição “de manhã, tarde e de noite” caso o capitão reformado do Exército ganhe a eleição. Mas diz que prefere “não acreditar” que ele vença no próximo dia 28 de outubro. “Prefiro que isso não ocorra. É muito ruim para o Brasil”. Sobre seu mandato, crava que sua marca será estar próximo dos eleitores do seu Estado e trabalhar incansavelmente. “Pode dizer aí que eu vou ser o que mais trabalha em Pernambuco”.

El País