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quarta-feira, 24 de outubro de 2018

'Faço parte da igreja banda podre, que Bolsonaro falou, com alegria e esperança', declarou Padre Luciano Aguiar


O candidato à presidência da República Jair Bolsonaro, falando a um grupo de latifundiários que não querem a demarcação de áreas indígenas, ataca a CNBB, organização da Igreja Católica. O candidato da extrema direita vai mais longe: Diz que os bispos da CNBB são a parte podre da Igreja Católica.


A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil é um colegiado episcopal que representa o conjunto da Igreja do Brasil. É a cabeça de todo o corpo.

Eu sou padre da Igreja Católica, me chamo, padre Luciano Aguiar do clero da Diocese de Floresta, nasci  no seio da igreja católica que me gerou na fé. Obtive a oportunidade de receber meu batismo de cristão e a formação de figuras  extraordinárias: dom Mário Zanetta um grande bispo da igreja, e do padre Lourenço Tori, missionários vindos de fora do Brasil que nos ensinaram a crer no amor e na caridade, e doar-se como sinal autêntico do evangelho com os mais pobres.

Depois tive a graça na minha juventude de trabalhar com o padre Remi de Vettor missionário Guanelliano que ensinou muito da opção pelos pobres, acerca de Jesus Cristo que nos liberta e que nos ama. Conheci diversos bispos ao longo da minha jornada, Antonio Fragoso, Crateus-CE; Dom Francisco Austregisilo, Afogados da Ingazeira; dom Egídio Bisol, dom Paulo Evaristo Arns, dom Aluisio Loicharts, dom Ivo Loischartes, dom Helder Câmara, dom Tomas Baduino, dom José Maria Pires, dom Gerardo Pontes, dom Valdir Calheiros, dom Adriano Hipólitico, que deram suas vidas a serviço dos mais pobres.

E tantos outros companheiros, como padre Josenildo de João Pessoa, padre Lino Della Morte de Serrita; Mário Costalunga de Tabira, padre Izaias de Propriá; para depois de tantos anos de caminhada escutar  de um homem sem caráter, chamar a igreja e seus pastores, a banda podre do catolicismo. Primeiro deveria ler a história, pra depois abrir a boca. Porém afirmo sem nenhum receio senhor Bolsonaro: Eu também faço parte dessa banda podre que o senhor falou , pois tenho orgulho como católico de fazer a opção pelos pobres, pelos excluídos. Houve no cristianismo em sua tradição católica, desde o tempo dos primeiros apóstolos que se reuniram em Jerusalém, depois da Ressurreição de Jesus e decidiam em conjunto como fazer para viver e anunciar o que aprenderam do Mestre. Mas as formas modernas de colegialidade, como as Conferências Episcopais nacionais ganharam força com o Concílio Vaticano II realizado entre 1962 a 1965.

Hoje o papa Francisco nos ajuda a pensar a cordialidade, caminhar juntos.

Dom Helder Câmara ajudou a criar a CNBB e foi seu primeiro Secretário Geral.  Por sua presidência passaram bispos de enorme envergadura, como Dom Aloísio Cardeal Lorscheider, Dom Ivo Lorscheiter, Dom Luciano Mendes de Almeida, já falecidos, além de Dom Jaime Chemello, hoje emérito da Diocese de Pelotas. Hoje é presidida pelo Cardeal de Brasília, Dom Sérgio Rocha, homem terno e sereno, homem de escuta e diálogo e de uma espiritualidade forte que transparece a todos que com ele se relacionam.

A CNBB é uma das instituições mais respeitadas pelo povo brasileiro, sempre ao longo da história recente do Brasil, com posições firmes e claras, mas equilibradas, coerentes e solidárias com o povo brasileiro. Não esqueçamos que o grande movimento para a superação da fome e da miséria, que resultou em ações de governo e de estado, nasceu numa Semana Social da CNBB, depois com desdobramentos intensos com Betinho e Dom Mauro Morelli.

O que fez o candidato ao chamar de “parte podre” a CNBB?

Desrespeitou e ofendeu a todos os católicos. Feriu a memória dos grandes que já partiram e presidiram a Conferência e que fizeram pela Nação muito mais que o deputado há trinta anos na Câmara. Ofendeu a honra de todos os ex-presidentes da entidade-cabeça da Igreja do Brasil. Mostrou falta de respeito com o Cardeal atual presidente. 

Chamou a CNBB de “parte podre” porque se destaca defendendo os pobres e seus direitos.

Os ataques, aos religiosos e religiosas que atuam junto ao povo pobre deste país em defesa de seus direitos já vem de tempos. Somos vítimas de agressão, desprezo, perseguição e violência há décadas. Muitos testemunharam sua coerência com o Martírio, como Padre Josimo, Irmã Adelaide Molinari, Padre Exequiel Ramim, Padre Burniê, Irmã Doroty, Santo Dias da Silva, só para citar alguns. Eu sempre busquei na minha vida de militante da juventude da PJMP ser testemunho de uma pastoral de risco. Quantas vezes com meus companheiros e companheiras não lutamos para que Salgueiro fosse uma cidade sem violência e que também não fosse mais chamada de polígono da maconha. Hoje salgueiro é conhecida pela cidade da paz da solidariedade com os mais pobres entre os pobres, sinal real do Senhor Crucificado. Ressuscitado entre nós.

Continuo fazendo aos longos dos meus 12 anos de padre, um trabalho muitas vezes não compreendido, pelas minhas escolhas pastorais. Temos casca grossa e costas largas, como dizia o saudoso dom Mario Zanetta, e sabemos que somos atacados e porque o somos, às vezes até por católicos, que pensam que religião é só rezar para aliviar a consciência, se ajoelhar. Penso que também deva ser, mas  também se envolvendo com a dor dos pobres de hoje. Ou católicos ricos que usam da Igreja para defender seus interesses de classe e excluir dela os pobres, que então buscam Jesus em outras denominações. Mas quando se faz um ataque deste quilate à Cabeça da Igreja, é sinal de que o conservadorismo  deu um passo à frente. Quer intimidar toda a Igreja de Cristo no Brasil. O lenho da cruz de Cristo é o lenho das pastorais sociais, misturados com as dores, as alegrias e esperanças dos pobres, como dizia o saudoso José Combleim, os preferidos de Jesus.

Se for eleito esse cidadão, tristes dias esperam o povo e nós com ele. Responderemos com as atitudes de fé. Perdoar, mesmo sabendo “que sabem o que fazem” e que interesses defendem. Jesus pediu até o perdão aos inimigos, reconhecendo que o Evangelho do Reino tem inimigos. O perdão não quer dizer que como cristão vamos nos calar, pois as vozes dos profetas não calam jamais, assim diz um canto da igreja. Ceder um milímetro na defesa dos pobres e dos perseguidos jamais, porque isto, além de amor e paz como referenciais para a vida e a convivência, encontrarão em nós solidariedade com os pobres e destemor e firmeza em sua defesa, mesmo com as todas as implicações que daí virão.

Não nos intimidarão, pois Jesus nos diz: “Tenham coragem, eu venci o mundo”. Aqui recordo ainda outro grande santo são Romero das Américas (se me matarem ressuscitarei no meio do meu povo). Quanto mais se critica a Igreja de Cristo mais forte ela fica. E dirijo humildemente minha prece ao Pai para que os atuais bispos do Brasil se inspirem no nosso único Mestre Comum, Jesus de Nazaré e na memória sempre viva de Hélder, Aloísio, Ivo, Luciano, Mario Zanetta, Francisco Austregisilo, Gerardo Pontes, dom Costa, dom Tiago Postma e tantos outros, nestes tempos difíceis de nossa história nacional.

*Padre Luciano Aguiar é presidente do Provida, ex-membro da PJMP, das CEBs e atual coordenador das pastorais sociais da Diocese de Floresta. Acima de tudo é um cristão batizado. que ama sua igreja.

Via Blog do Alvinho