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segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Em Salgueiro, grupo de mulheres pró-Bolsonaro contraria estatísticas

Na Praça da Bomba, no Centro de Salgueiro (PE), município a mais de 500 quilômetros do Recife, um grupo de mulheres contraria as estatísticas. Faltando uma semana para o primeiro turno das eleições, mais da metade (52%) das eleitoras brasileiras rejeitam o candidato à presidência Jair Bolsonaro (PSL). No Nordeste e em Pernambuco, a rejeição é ainda maior: 61% em ambos os casos, segundo o último Datafolha divulgado nesta sexta-feira.

Nesse contexto, a Praça da Bomba é uma ilha. É onde fica o comitê de Bolsonaro, ponto de encontro e distribuição de material até para um carro da Polícia Militar que passou pedindo adesivos do candidato, enquanto a reportagem conversava com algumas militantes. É ali, onde cinco, das mais de 100 mulheres que participam do grupo PSL Mulher Salgueiro no WhatsApp, se encontraram para explicar por que, diferentemente da maioria das mulheres da região, elas apoiam o capitão reformado do Exército para a presidência.

“O que eu mais vejo aqui é mulher apoiando ele”, diz a oficial de Justiça Narjara Pires de Carvalho e Sá Alencar, 36. “Não acho que há rejeição maior entre as mulheres e nem acredito em pesquisa. Que pesquisa é essa?”, questiona.

Em comum, além de não acreditarem em pesquisas eleitorais, algumas delas já votaram no PT, a maioria trabalha ou tem algum parente próximo ligado à segurança pública, são a favor do porte de armas, a maioria é contra as cotas e todas acham que o presidenciável pode resgatar os valores da “moral e da família“. “Ele não vai ser o salvador da pátria”, diz Ariane de Sousa Gondim, 28, bacharel em direto. “Mas ele vai trazer mais valores”.

Esses “valores” mencionados por Ariane foram exemplificados de algumas maneiras. “Eu não sou homofóbica, o que eu sou contra é fazer campanha LGBT com o nosso dinheiro público”, diz a agente penitenciária Marilene Cruz, 48. “Ninguém nunca impediu os direitos LGBT”. “Eles têm que acabar com essa mentalidade que todo mundo os recrimina”, emendou a médica Nayana Pires, 35. “Se você já sabe que é homossexual, desde pequeno você vai saber. Independentemente de alguém te reprimir. Não precisa induzir, as coisas acontecem naturalmente”. O argumento das eleitoras tem base no que Bolsonaro chama de campanha para o ensino de “ideologia de gênero nas escolas”.

Outros valores  pregados pelo candidato também correspondem aos de suas eleitoras. No final de julho, o presidenciável disse no programa Roda Viva, na TV Cultura, que pretendia ao menos reduzir as cotas raciais nas universidades, para acabar “com essa divisão no Brasil”. Nayana concorda com a ideia. “Essa história de racismo. O próprio negro começa a se vitimizar. Por isso não sou a favor de cota, porque do jeito que tem pobre negro, tem pobre branco”, diz ela. “Tem muita gente sem condições de estudar, que precisa de uma vaga na faculdade e que não tem porque o outro é negro [e entrou por meio de cota]”.

Alinhamento

Não só os argumentos dessas eleitoras estão alinhados com o candidato, como também, muitas vezes, são a repetição do que ele próprio costuma afirmar. “Não sou economista”, afirma Narjara ao ser perguntada de que maneira seria possível reduzir as tributações, como ela defendeu, mantendo-se os direitos trabalhistas. “Um salário mínimo hoje não é nada para quem ganha, mas é muito para quem paga”, afirma, usando outra frase já utilizada por seu candidato em entrevistas.

A opção desse grupo de mulheres vai na contramão do que outra parcela do eleitorado feminino argumenta sobre Jair Bolsonaro. Neste sábado (29/09), mulheres de todo o país saíram às ruas sob consigna ‘#EleNão’, que prega “contra o avanço e fortalecimento do machismo, misoginia e outros tipos de preconceitos representados pelo candidato Jair Bolsonaro”. As eleitoras do candidato do PSL comentaram a mobilização e discordam da premissa.

Para as eleitoras do capitão, ele não é machista, apenas “fala o que pensa”. “A manifestação é livre, mas eu não vejo um cunho só político”, diz Narjara. “Vejo intolerância e preconceito. Ao meu ver, os violentos são eles“. “Simplista”, define Marilene, que diz conhecer o movimento ‘#Elenão’, mas não compreende seu objetivo. “Não dá para entender”, diz. “Minha ideologia bateu com a dele. Muitos acham ele louco. Eu acho ele sincero”, afirma Narjara. 

Via: El País